
Como filho único, o senhor Israel herdou com a morte do seu pai, uma magnífica mansão com três pisos, garagem para seis carros, dez quartos, duas suites, catorze casas de banho, um escritório, um salão de baile, um bar, uma sala de jogos, um pequeno cinema, uma magnifica garrafeira, uma sala de fumo, ginásio, sauna, banho turco, além duma enorme cozinha, sala de jantar e sala de estar, tudo isto inserido num terreno imenso, com uma piscina de vinte metros de comprimento, balneários de apoio, campo de ténis e um relvado que dava para realizar jogos de futebol. Sendo um homem de negócios muito bem sucedido, o seu pai adorava dar festas, e a sua mãe era uma excelente anfitriã. Com uma família numerosa e a viver no outro lado do globo, há muitos anos que o senhor Israel não punha os pés naquela casa magnífica, mais precisamente, desde que a mãe morrera. A propriedade só tinha um defeito, quando o seu pai a construíra, tudo á volta eram terrenos que iam ser loteados, mas, por questões politicas, os loteamentos nunca avançaram, e nos últimos anos, cresceram barracas ao redor da casa como cogumelos selvagens. A verdade, é que agora aquela magnifica mansão se encontrava no meio de um bairro de lata. Contrariando os conselhos dos amigos, e da própria família, que argumentavam que com o dinheiro que ele tinha podiam viver em qualquer parte do mundo, ou, simplesmente, ficar onde estavam, o senhor Israel pensou que mesmo com todo o dinheiro que tinha, não conseguia comprar uma casa daquelas, além do mais, o clima era óptimo por aquelas bandas. Decidiu assim, que era altura de honrar a herança do pai e seguir as suas pisadas. Assim, mudou-se com a mulher e os filhos, para a vivenda no meio do bairro de lata. O seu pai, talvez por ter ficado viúvo, e nos últimos anos viver sozinho com uma governanta e duas criadas, mantinha uma boa relação com as pessoas do bairro. Permitia que os miúdos tomassem banho na piscina, e que as pessoas tirassem água do único poço que havia nas redondezas e que servia para encher a piscina. Os muros que rodeavam a propriedade tinham um metro e meio de altura, e pode dizer-se que toda a gente do bairro usufruía daquelas magnificas instalações. Respeitando a vontade do pai do senhor Israel só não entravam dentro da casa principal. Nos primeiros tempos, o senhor Israel seguiu os mesmos princípios do seu pai, mas, aos poucos, começou a ficar farto das queixas dos filhos, principalmente das filhas, de que não tinham privacidade nenhuma, que eram assediadas pelos malandros do bairro, etc. Também começou a ficar farto que os putos da vizinhança lhe mijassem na piscina, ocupassem as espreguiçadeiras todo o santo dia ouvindo musica horrível num volume estupidamente alto, e lhe dessem cabo do relvado jogando futebol de manhã á noite.
O senhor Israel tomou uma decisão, mandou erguer um muro com três metros de altura, encimado por arame farpado electrificado, com cameras de vigilância e holofotes de alta potência, e, não permitiu que mais ninguém pusesse os pés dentro da propriedade, nem que recolhessem água para as suas necessidades. As pessoas do bairro de lata ficaram chocadas, primeiro tentaram falar com ele para o convencer a mudar de ideias, ou, que pelo menos, lhes permitisse o acesso ao poço, já que não havia mais nenhum em vários quilómetros ao redor do bairro, mas, o senhor Israel não quis ouvir ninguém. Depois, foi o caos, começaram a lançar sacos de plástico cheios de merda contra as paredes da propriedade, galinhas mortas sem cabeça para dentro da piscina, quebraram-lhe vários vidros da casa, penduraram uma cabeça de porco na porta principal, punham musica altíssima a tocar ás três da manhã, e outras barbaridades do género. Através das cameras de vigilância o senhor Israel e os filhos conseguiram identificar dois dos vândalos que atiraram galinhas para dentro da piscina, e deram-lhes um enxerto de porrada. A coisa ainda ficou pior, o senhor Israel e a família, só conseguiam sair da propriedade de automóvel durante a noite, porque de dia eram apedrejados. Todos os dias voavam sacos de merda ou ratazanas vivas por cima dos muros. Queixou-se ás autoridades, mas estas assobiaram para o lado e não tomaram medidas nenhumas. Sentado na mesa á beira da piscina, enquanto mordiscava uns camarões e bebia uma taça de champanhe, o senhor Israel pensava que medidas mais drásticas deveria tomar. Talvez comprar umas armas automáticas, e, por que não, umas granadas e mandar algumas barracas pelo ar com aquela gente horrorosa lá dentro? Enquanto meditava nisto e a sua mulher apanhava banhos de sol deitada numa espreguiçadeira ao lado da mesa, um saco de plástico carregado de merda aterrou em cheio na travessa dos camarões, todo salpicado de merda e de molho de camarão, o senhor Israel deu um salto e um murro na mesa, berrando para a mulher: "Este maldito bairro não vai dar cabo de nós, nós é que vamos dar cabo deste bairro miserável". Podia viver rodeado de inimigos por todos os lados e debaixo de uma chuva de merda, mas, com o dinheiro que tinha, viveria á grande e segundo a sua própria lei. O seu falecido pai, que tinha chegado ali primeiro que aqueles desgraçados todos, costumava dizer: "Não custa nada um homem sonhar, o que custa é acordar". Pois bem, se era assim que queriam, então, não haveria nada, nem ninguém neste mundo, que o obrigasse a acordar. E mais, iria transformar a vida daqueles merdosos num pesadelo, ou, ele não se chamasse Israel.
F. Kaskais Web Guru
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